Há janelas que esperam que lhes sacudas a paisagem do parapeito, que lhes laves das vidraças essa vã memória de terem havido roseiras no horizonte do seu olhar; que lhes soltes do peito os interiores, verões passados à sombra dos barcos que naufragam no meio do tecto. Exposições nunca antes vistas dos humores de violetas, deixadas secas, sob a robustez de uma secretária cega. Há portas que rangem, que pedem e pedem que lhes alivies das costas o choro quebrado das quedas. E, não me perguntes porquê, mas há tardes nos canapés que se prolongam noite adentro, numa ilusão de haver ainda pássaros que batam asas ao sol, como folhas de vento baloiçando-se entre as copas das árvores, de quando eu e tu adormecíamos a sesta em redes de linho. Que há campos de alfazema por correr e jardins secretos em que nos perderíamos ainda, se nisso achássemos tempo suficiente numa baga de uva. E, ouve-me: de todas as casas que te esperam, tu serás sempre a única desabitada.

– Beatriz Hierro Lopes

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