Extraviadamente amantes, pelo mundo. Amar! Que confusão sem par! Quantos erros! Beijar rostos em vez de máscaras amadas. Universo em equívocos: minerais em flor, vogando pelo céu, sereias e corais nas neves perpétuas, e no fundo do mar, constelações já fatigadas, as desertoras da grande noite orfã, onde morrem os escafandristas. Os dois. Que descaminho! Este caminho, o outro, aquele? Os mapas, falsos, transtornando os rumos, apostam que nos perdemos, entre perigos sem farol. Os dias e os n«beijos andam equivocados: não acabam onde dizem. Mas para querer é preciso embarcar em todos os projectos que surgem, sem perguntar-lhes nada, cheios, cheios de fé no equívoco de ontem, de hoje, de amanhã, que não pode faltar. De alegria puríssima de não atinar, de nos acharmos em umbrais, nas margens trémulas de victória, sem vontade de vencer. Com o júbilo único de ir vivendo uma vida inocente entre erros, e que não quer mais que ser, querer, querer-se na grande altitude de um amor que vai já querendo-se tão desprendidamente d’aquilo que não é ele, que paira já acima de triunfos ou derrotas, embriagado na pura glória do seu acertar.

– Pedro Salinas

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