Não sei se chegamos realmente a compreender. Temos experiências, temos acesso à catadupa dos factos, possuímos milhentas explicações. Recorremos a fórmulas que encaixam e desencaixam. Baseamo-nos em pareceres. Vivemos com ansiedades que o tempo modela, fazendo-nos pensar que as modera. Tudo isso. Mas não sei se chegamos a compreender verdadeiramente. Talvez porque compreender seja outra coisa, peça de nós outro tempo, distinto daquele que estamos habituados a usar, nos exponha na nossa pobreza, encaminhe a nossa inteligência e o nosso coração por territórios porventura mais próximos do silêncio do que da palavra. Penso muitas vezes naquela pintura de Goya que retrata um cão. Não sabemos exactamente o que é que o cão está ali a fazer: apenas vemos o seu focinho que sobressai, solitário, projectado num céu vazio. Dir-se-ia que ele fareja não já o mundo, mas a fronteira do mundo, à maneira de um detective metafísico. Quando penso nesse cão de Goya acontece-me associá-lo a uma frase da escritora Maria Gabriela Llansol sobre o trabalho de compreensão de um texto (que não há de ser diferente do trabalho de compreensão do mundo e de nós próprios). A frase diz: “Compreender um texto é como compreender um cão… / ou seja / é aceitar que não se fala / que se não compreende, excepto pela companhia.” Armámo-nos de instrumentos sofisticados de análise, estratificamos, decompomos, observamos através de lentes que reputamos infalíveis, e esquecemo-nos desta verdade básicaa compreensão passa necessariamente, por um avizinhamento, por uma descoberta mútua que só a reciprocidade vai tecendo e aclarandoA compreensão é um jogo jogado na consciência de que estamos perante o vivo, que se dá a ver na dobra, no intervalo, na interacção afectiva na dedução incalculável daquilo que cada um traz escondido, sem nos deixarmos capturar pelas expectativas, sem impormos nada do que sabemos ou pretendemos saber. Llansol tem razão: não compreendemos nada nem ninguém, excepto pela companhiaHá três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio. De facto, a companhia pode até ter finalidades secundárias que dependem das circunstâncias, mas ela precisa, no fundo, de não ter outro fim que ela mesma. “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante para ti”. Quer dizer: temos de aceitar ‘perder’ para que a relação valha. E perder é mesmo perder: não só tempo, mas também representações prévias, aspirações, projectos, utilidade, vida. O objectivo é poder alcançar aquela plena liberdade da definição que Montaigne propõe: “Se me intimam a dizer porque o amava sinto que só o posso exprimir respondendo, porque era ele. Porque era eu.” A companhia constrói-se, em seguida na aceitação. Aceitar, aceitar – que exercício tão difícilAceitar a noite e o nada, o silêncio e a demora, aceitar a graça e a fraqueza, a diferenciação e o desapegoDe tudo fazer caminho. Aceitar ver o todo apenas na parte, na visão incompleta, no gesto inacabado. A ansiedade de dominar é um equívoco. A companhia é outra coisa: é aceitar que tudo é passagem, epifania, revelação que não se toca. E, por fim, a partilha do silêncio. Como é que percebemos que duas pessoas se acompanham? Pela forma como conversam? Certamente. Mas talvez ainda mais pela forma como acolhem o silêncio uma da outra. Entre conhecidos o silêncio é um embaraço, sentimos imediatamente a necessidade de fazer conversa. Mas quando nos acompanhamos, o silêncio é uma compreensão que une.

José Tolentino Mendonça, in Revista do Expresso, 29/06/2013

01ANDRÉS OROZCO CHAVES

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