OLHAS PARA MIM,
um punhado de ossos
arrumado num saco de plástico preto,
dor e pedagogia, papo seco
agarrado a uma lembrança.

Tens nojo do contorno oleoso
que o meu cabelo dá ao teu passado.
Acusas-me de misturar whisky com coca-cola.
Queres os livros de volta.

Está tudo certo.
Mas deverias ter medo,
sei lá, apanhar uma doença qualquer,
alimentar um próspero tumor.

Com esta caneta,
esventrei príncipes e porcos
acreditando que era com a barriga que pensavam.
Sonhei de mais. Jurei em falso.
O horizonte fechou-se,
lentamente,
como uma cicatriz do espaço.
O sol e a melancolia
fazem crescer agora, à minha volta,
um girassol de chumbo.
O verão
insiste em amadurecer na minha pança,
as suas abóboras para pintar.
Tudo certo.
Aguardo hoje em paz – não é assim que se faz? –
a alegria da reforma,
como o alívio estrondoso de uma catástrofe,
sentado e bêbado,
ou apenas quieto e envergonhado,
no topo de um poste de electricidade.

Ao longe, as luzes da marginal
tiritam uma ópera astral,
enquanto o mijo me aquece as pernas
O que posso fazer, Gabi?
Sou um pássaro noctívago,
tenho os olhos maiores que o meu cérebro.

Golgona Anghel
in, COMO UMA FLOR DE PLÁSTICO NA MONTRA DE UM TALHO
Assírio & Alvim 

 

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ANDRÉS OROZCO CHAVES

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