Park-Guell-in-Barcelona-SpainPássaros azuis. Tu sabes. São sempre azuis os pássaros que pousam nos vincos do teu corpo. Copas. As cartas pousadas na mesa, na periferia de um envelope. Penso nos espelhos, no preço dos espelhos, no custo do reflexo. O sentido refractário da realidade quando inadvertidamente os corpos se tocam e a verdade do poema prescinde de um sentido ulterior, como se fosse a própria vida. O meu corpo sentadamente explícito, manifestamente sentado sobre algum sentido que houvesse por baixo da ausência de um objecto a que chamássemos verdade. Tu sabes. Os pássaros azuis pousados. As memórias pousadamente explícitas sob a razão das coisas. Os teus motivos para existir quando existes instantemente. Tu sabes. A casa, a cama, as mesmas cartas de jogar, um retrato. O teu corpo parado. O corpo parado de alguém. As metáforas como engrenagens ou unguentos. Com elas digo a razão das coisas e justifico o mundo. A razão onírica. A razão inútil. As reticências. A minha vida. A metafísica, a cornucópica razão das coisas, a voluta sob algum motivo para existir instantemente. O sentido canónico de certas verdades que redimem tão subjectivamente que talvez não redimam. Sabes que me detenho na organização minuciosa de realidades organizáveis para me proteger das realidades desorganizadamente explícitas. Tu sabes. És a minha babilónia, a minha utopia babilonicamente explícita, a minha cidade. E eu só te peço a natureza poética e deambulatória de certas imagens, porque se outra coisa te pedisse e nenhuma verdade houvesse, eu seria apenas como se fosse outra coisa e assim não pudesse ser a tua verdade em processo de proto-subjectividade ou auto-antropofagia ou efeito de contraluz. Ou pássaros azuis nos vincos do teu corpo, a escorar a fome, a morte, a metafísica, a cornucópia, o vernáculo, maçãs e caligramas. Eu sei que deformo a realidade para torná-la possível, inteligível, outra coisa. E não distingo conceptualmente certos unguentos da generalidade das paisagens. Talvez sejas a minha cidade. E assim talvez seja eu cornucopicamente implícito. Separo as copas das outras cartas. Recolho-as no envelope como se soubesse domesticar pássaros azuis. E anoitece.

José Rui Teixeira
Barcelona [MACBA] . 28-07-2013

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