Que saudável que é pôr as mãos a fazer coisas
deixá-las criar percursos, tactear os vazios
amestrar-se em sempre renovadas rotinas
viver a sua vida entre o fluxo das dimensões
habitar o gesto como uma luva se habita
procurar a solução correcta porque eficaz
definir a indecisão como acção positiva
adejar nas pausas plásticas sólidas
imprimir tudo o que pensam em memórias solúveis…
Deixá-las pastar verde, dos vértices aos interstícios
e regressar sobre o rasto de cada viagem
aos pontos futuros que balizam as recordações
como cabras sadias pelas veredas em sombra
num fio de madrugada, num gume de crepúsculo…

Penso nas minhas mãos não como minhas
mas como um eu simétrico mais adiante
os hélices vertiginosos que me aspiram de todo
o mim bipolar que pensa sem palavras e age.

Esforço-me por aprender com elas (comigo)
a geografia animada e volitiva das coisas
não de um modo táctil e complementar da vista
mas como uma seda tecida de pensamentos
que esposa e sepulta em memória os percursos úteis.

Esforço-me por esquecer com elas
os erros de rota e as derrotas com bússola
obnubilando, obliterando as imagens falazes
euclidianas e plantadas em cada canto
do espaço mental que me permitem viver.

Só me conhece quem me sentiu as mãos.
Só conheço e cortejo quem percorri inteiro.
Perdoem-me a distância de onde falo aqueles
de quem sou irmão tão incompletamente.

Vivo frugal, sóbrio, parco – existo – nas mãos.
Todo o meu corpo é um pesado alicerce.
Todos os meus pensamentos são fugazes apêndices.
Do visgo placentar recorto a memória em blocos.
Não possuo outras recordações para além dos gestos.
Não tive passado.
As minhas mãos tiveram sempre este tamanho.

                                                                               Machava, 6-7-76

João Pedro Grabato Dias

04_2048

ANDRÉS OROZCO CHAVES

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