Na última reunião de condomínio, que decorria na ampla garagem do prédio, trazia a música tão alta dentro do carro que nem reparou no aglomerado de pessoas, que estavam em círculo, algumas de braços cruzados, outras a acabar de chegar, fingiam atenção ao homem que esbracejava exuberantemente. Ema consegue perceber-lhes os pensamentos e as maiores preocupações não eram as contas do prédio por liquidar mas a lista de compras do supermercado, que naquele momento reviam obsessivamente para não lhes falhar nada no frigorífico. De repente, um homem bate-lhe no vidro do carro, faz um gesto irritado, e vocifera “baixe o som, se faz favor, estamos em reunião!”.

Mais um dia de Ema que não parece chegar ao fim.

Antes de sair do carro, agarra na agenda, revê os afazeres que lhe roubam o tempo para o voluntariado no banco alimentar, para a visita ao pai, o tempo que deixou de ter, porque assim tem sempre tempo para adiar o que dói. Arrasta-se nessa atitude passiva, aplaudida por todos, que quanto mais fizeres melhor, aceitável para os amigos e valorizado no mundo do trabalho. O que acaba por escassear é  a coragem, sabe-o bem.

Ema  limpa o rimel, agarra a mala dos processos, baixa o som da música, sai do carro, esboça um sorriso de circunstância, para trás as vozes do aglomerado, entra na porta do elevador, e pensa: como é que esta porta, que abre automaticamente, parece ter o peso da minha existência?

writtten by Andrea

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