Poucos exercícios são tão estimulantes quanto o de resgatar uma palavra maldita. E é isso que acontece em “Missing Out” (2012), do psicanalista e ensaísta inglês Adam Phillips, livro que reinvindica, imaginem, a bondade da “frustração”. Phillips é o actual editor das obras completas de Freud em inglês, mas não se trata aqui de repetir a conservadora teoria freudiana segundo a qual a civilização depende da repressão dos instintos, e portanto da sua frustração; o que “Missing Out” procura demonstrar é que sem frustração não há satisfação, que a frustração é sinal de que existe uma satisfação (que por enquanto nos escapa). A frustração sugere um futuro e uma esperança. A chamada “experiencia” é com efeito um acumular de frustrações. Temos uma infinidade de vontades, algumas obscuras, muitas contraditórias. E mesmo quem goza de ampla liberdade e capacidade de escolha, não consegue ter tudo, ou ter tudo de uma vez. Podemos ir a Prega e a Buenos Aires nas férias, mas visitaremos uma cidade e depois a outra, nunca as duas ao mesmo tempo. enquanto estamos em Praga frustraremos a capacidade de estar em Buenos Aires e vice-versa. Cada experiência impede outra experiência, alternativa, concomitante, oposta. Essa impossibilidade de obter tudo é com frequência incomodativa e obsessiva, de tal modo que o psicanalista diz que a frustração se torna “a experiência de não termos tido uma experiência”. E acrescenta: “Vivemos como se soubéssemos mais sobre as experiências que não tivemos do que sobre as que tivemos”. Isto porque a satisfação é real e transitória, enquanto o desejo é irreal, abstracto, inesgotável, não confinado ao provável ou ao possível. Phillips apresenta uma tipologia de frustrações: podemos ser privados de coisas que nunca existiram, privados de coisas que nunca tivemos (tenham existido ou não); privados de coisas que temos; ou privados de coisas que tivemos mas não podemos voltar a ter. Ele não dá exemplos, mas podemos conceber alguns. Grande parte da frustração política, à direita e à esquerda resulta da insistência em mitologias que nunca aconteceram ou acontecerão, como um passado impoluto ou um futuro radioso. Por seu lado, sermos “privados de coisas que nunca tivemos” sugere ambições frustradas, como angústias de status, mas também utópicas e delírios de grandeza. Em seguida vem o caso mais comum, o de sermos privados de coisas que temos, como acontece com o despedimento ou o divórcio. Finalmente, somos também privados de coisas que tivemos e não podemos ter de novo: é o caso da nossa juventude. E a nossa vida é essa vida que podíamos ter tido, ou que já não podemos ter, ou que nunca tivemos. O livro de Adam Phillips tem como subtítulo. “In Praise of the Unlived Life”, e faz justamente isso, o elogio da vida não-vivida. Porque a “vida mental” faz parte daquilo a que chamamos ” a nossa vida”, de modo que a nossa vida inclui o que aconteceu mas também o potencial, hipotético, desperdiçado, ausente. Como desejamos aquilo que nos falta, somos aquilo que nos falta. Podemos ter mecanismos de defesa, estratégias de fuga, confusionismos, e então escondemos, negamos, camuflamos aquilo que está em falta. Mas tudo o que é reprimido regressa à superfície, em certos casos de forma patológica. O ensaio explica como esta mecânica define o nosso comportamento para com os outros. E defende que há uma frustração boa nas relações humanas, uma frustração na quantidade certa, digamos: “As pessoas tornam-se reais para nós quando nos frustram, se elas não nos frustram, então são apenas figuras de fantasia. (…) se as outras pessoas nos frustram na medida certa, tornam-se reais para nós, quer dizer, tornam-se pessoas com quem podemos trocar alguma coisa; se nos frustram demasiado, tornam-se demasiado reais, isto é, (…) pessoas a quem temos de fazer mal; se nos frustram muito pouco tornam-se personagens idealizadas, imaginadas (…). A frustração prepara o desejo para a satisfação, e por isso só quem nos frustra é que nos satisfaz, tal como só quem nos satisfaz é que nos frustra. Gosto do facto de Phillips, um prosador inteligente e subtil, não esperar demasiado do “autoconhecimento”, tanto na versão filosófica dos gregos como na versão austríaca da psicanálise. É que também o conhecimento é frustração, ou seja, desilusão, impossibilidade. Dizemos que “conhecer é amar”, e que “parece que conhecemos” quem amamos, mas são malabarismos verbais, poéticos. Não conhecemos verdadeiramente ninguém. Até o nosso “autoconhecimento” não passa de uma autodescrição. Em última instância, somos incognoscíveis, excepto pelas nossas características superficiais, secundárias, anedóticas, mutáveis. Conhecemos, isso sim, aquilo que nos falta, que nos frustra; mas é o desejo, e não o conhecimento, que conta. O psicanalista britânico não acredita num conhecimento que nos dê sentido e que fuja do desejo, mas num conhecimento que nos liberte para o risco de desejar o que falta. Talvez possamos ironizar o nosso fracasso, mas não devemos desistir dele.

Pedro Mexia no ATUAL do Expresso de 5.10.2013

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