Se a minha vida não é isto
o que será a vida?

Martín Adán

Perguntas-me pela minha vida à queima-roupa:
que posso responder, com o quê e de que modo?
O que sei da minha vida risca-o tudo o que dela não sei:
as palavras não alcançam, as memórias confundem-se.
A minha vida é o que fiz,
o que desfiz, o que deixei de fazer.
Para saberes da minha vida, pensa na morte;
pensa em ti que estás viva e hás-de sobreviver-me.
Não sei se terei tempo
para viver o não vivido, para matar o que vivi,
para viver a morte antes que me morra.
Minha vida recebe instruções de outras vidas
anteriores a mim, às quais sirvo
como fiel sucessor e que em mim revivem
– não tenho olhos senão para o que não vejo.
Minha vida é uma noite que não se adapta à luz,
um astro fugitivo extraviado na terra;
é também a palavra que ainda não me achou,
a mensagem misteriosa que não decifrarei.
A minha verdadeira vida talvez ainda venha a inventar-se.

– Ángel Guinda

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