Interessa a viagem, pouco importa o destino. Gosto de me integrar, digamos, na intimidade dos outros. Por vezes, acontece, não temos muita sorte e extraem-nos sem misericórdia.
Amputam-nos.
Eu prefiro o aleatório. Tenho o direito de querer um coração que me aloje, ou de me prolongar na cabeça de alguém.
[Tenho uma amiga que já fez um homem perder a cabeça. Isso, porém, não se faz nem me satisfaz. A minha técnica é mais subtil, mas o intento é o mesmo: quando entramos na intimidade de alguém, ninguém pode sair ileso. Se saírmos ilesos, foi inútil. Eu, felizmente, tenho estrias.]
Quando morrer, gostava de levar no corpo o sabor de um estranho a quem me dei em volúpia. Gostava de levar aquele suspiro das insónias, o eco de um verso inacabado, o sangue frio da paixão, os sonhos de infância, ou o andamento lento de um órgão reservado a requiems.
[Esta bala foi vítima de um homem perdido]

– Vítor Sousa

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