A minha avó trazia o cântaro
e enchia vagarosamente
os púcaros com água.
Eu ficava a olhar e
por um instante acreditava
que não havia mundo
fora dos muros do pátio
e que o estrangeiro era uma invenção
dos que perdem as chaves
ou o caminho de casa.

A JUVENTUDE

Às drogas, aos estaleiros das obras,
ao vento do árctico nos ramos finos dos vidoeiros,
às navalhas e às lâminas, aos automóveis
a cortar a noite sem faróis nos caminhos
de terra, aos metais incandescentes,
às fasquias, à música, à electricidade
estática, aos ferros amarelos dos guindastes,
às páginas dobradas dos livros de geologia,
aos incêndios, ao rumor dos caules da insónia,
às fendas das águas subterrâneas
dos relâmpagos, ao amor sem o cálculo, ao álcool,
às bombas de combustível, aos declives,

a tudo isso e mais a juventude deve
a eternidade do seu tempo imenso e breve.

já nem procuras a luz dos faróis que separam as enseadas e
as escarpas íngremes
como se aceitasses o princípio de que o
futuro depende dos processos de deriva litoral
como se nada valesse a pena
como se tudo fosse o resultado da vontade dos outros
até que alguém te dirá «talvez não seja tarde»
mas já não sabes os segredos de puxar as
estrelas cadentes com fios de ráfia
mas já não sabes respirar debaixo de água nos
açudes das penínsulas
mas já não sabes tirar o pão do forno enquanto as
pedras estão incandescentes
mas já não sabes em outubro adormecer nas avenidas à
espera da primeira e única folha dilacerada do ácer
mas já não olhas os desenhos das encostas de caducifólias a
procurar estabelecer o roteiro das perguntas difíceis
preferes desistir
secaram nos jardins os caules dos gerânios
desapareceram no horizonte o anil e a púrpura da luz tão
vagarosamente a evaporar-se
as crianças correm em desequilíbrio nos muros estreitos dos loteamentos
os velhos sobem às açoteias e olham para o lado de
dentro da idade à procura de respostas
e é tarde
já nem procuras
o passado não existe

não queres nada
o ramo de ser o melhor no dia das colheitas da
flor-de-púrpura-das-sete-pétalas-desencontradas
o prémio de atirar mais longe no malhão a pedra-do-prémio
não queres nada
não queres vencer no terreiro do largo do meio-da-aldeia
não queres a
memória gloriosa das mulheres que traziam cântaros castanhos à
cabeça com os seus contornos irregulares contra
a luz excessiva
não queres sucumbir ao poder da aliteração
não queres o disfarce das máscaras dos domingos depois dos
horários litúrgicos
não queres as flores dos panos de linho em cima da cómoda
não queres a página do jornal com o círculo desenhado a tinta-da-china
não queres os líquidos aquecidos nos jarros de cerâmica
não queres a ardósia ilusória dos alicerces das casas
não queres nada
queres o vaso minúsculo da água-das-fontes
queres a flor desarmada da urze-branca dos primeiros meses
queres a toalha estendida na mesa-dos-encontros
queres a luz de ser ainda o outono e de caírem as folhas das
árvores vagarosamente nos limites mais próximos dos meses de novembro
não queres nada
vem de tão longe o desejo de erguer nas varandas o
nome dos primeiros meses
o incombustível desígnio das nascentes iluminadas pelo lado de dentro
a leveza das coisas
o incêndio dos telhados vagarosos
não queres nada
não queres a vantagem dos nomes acabados de dizer em voz alta
não queres o álbum das fotografias dos casamentos e
dos baptizados antes do acordo ortográfico
não queres abdicar da etimologia
não queres abdicar do pão a levedar no forno das pedras incandescentes
não queres abdicar da água-dos-herdeiros
não queres nada
queres que se percam no interior de si mesmos
queres que um dia os senhores dos impostos nem saibam fazer as contas
quando for o tempo da contabilidade
dos desastres inumeráveis

vai ser difícil regressar à simplicidade dos gestos iniciais
porque primeiro é preciso retirar o entulho dos armazéns dos desperdícios
e já nem sabemos por onde espalhámos os objectos excessivos
vai ser difícil
os holofotes iluminam as árvores erradas
nos caminhos cresceram as ervas azuis do esquecimento
e é preciso fazer tudo ao contrário
recomeçar a partir dos campos lavrados
da luz adormecida no cimento das açoteias
da água a correr nos canais de rega
vai ser difícil
porque primeiro é preciso desligar a máquina oscilatória dos interesses
e já nem sabemos
no emaranhado de fios
quais são os fios
por onde devemos puxar

[José Carlos Barros]

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