001-project-laura makabresku
Desperto. Um travo dói, de treva que
persiste e enreda a manhã, musical
e estranha. Depois da escrita, o corpo
pouco mais faz que repetir-se numa
segunda língua e em má tradução.
Solitário resto, cinza que se levanta a
sopros curtos neste halo de ressaca; abre
nos ossos um mapa para a memória e
segue uma luz despercebida, de alento
suavemente filtrado. Serves a casa de
canções descarnadas, sombras de vozes
remendando o tempo. Nada resiste,
e as ruas, na sua desilusão afável,
viram-se para o teu lado melhor.

Contenta-te em abrir os olhos pela tarde,
pela sombra. E menos pelo que vês
do que pelo que sabes. Esta mulher,
calada e obscena, prefere um vazio
com que pode contar. Se alguém
ainda lhe prende a atenção,
com uma súbita ternura, pede-lhe
que fuja. À luz sóbria da leitura, doba
essa réstia de perfume, flor pisada,
e ali fica de colher no tédio, um reflexo
atrás de um rosto que não quer
ser recordado. A própria respiração
é já uma lição de história e nos dedos
roda um copo que traz o mar inteiro
a bordo. Rema a tarde devagarinho
até à margem, entrando na penumbra
e no exílio, e deixa a sua rosa apontada
a um mundo desviado das rotas.

Um pouco afastado, de leve no escuro,
vem este entregue a uma sorte de
afogado, como um trágico provinciano
que sabe Shakespeare de memória
e vagueia pela cidade, sofrendo.
A noite é tanta, tão difícil de contornar,
que um tipo a ganha mais cedo
estimando velhos hábitos, uma certa
desmesura, queimando no álcool
a razão e a dor. Há coisa mais perdoável
que uma tristeza delicada e honesta?

Como cintilam de passo em passo,
roídos de beleza. Carne falida e mortal,
puxando do sonho as suas raízes.
Desfeita a esperança, educa-se
melhor uma paciência mortífera.
E com que histórias se destroem,
nesta arte alada e fluida de contar,
de tomar os dias um por um e contra
todos os outros. Tenta acertar
com o erro, este embalo de fim de
estirpe. Ando a escrevê-los, a estes
poucos a quem peço chão, mais
lucidez, um verso que se afunde
e alargue com uma força hereditária.
Que posso dizer que um simples
olhar não entendesse melhor?

Diogo Vaz Pinto

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