Procurar os gestos calmos, sem ciladas nem excessivos rodeios, voltar aos gestos que nos simplificam e tornam seres naturais, esses que não se bifurcam, mas encavalitam expressivamente, por um gosto mais do que residual. Pousar as ideias junto à voz, palavras como pedras quando se fazem vento, correntes arrastando aromas, sensações mais do que ansiedades: mais do que a vontade, a firmeza limpa de reconhecer em tudo um fim em si mesmo. Toda a previsão se arruma num desgosto. Ter verdadeira visão, no sentido visionário, é menos um talento que apalpa o futuro do que ficar contente por esquecer o tempo, alargar um gesto no espaço, rolar o dado desinteressadamente e dar os passos em volta de si como de nada, furtivamente, como animais de um género indiscernível. É uma ficção que amesquinha, o tempo: fazer dele a medida à cabeça de tudo, envergonha os ombros que nos suportam. O tempo cobra-se juros, vive de uma matemática avarenta, um ritmo em desprezo pela melodia; persuasão sem graça nem eloquência. O espaço e a razão das suas distâncias conserva sempre mais nobreza. As paisagens permanecem, desdobram-se, fluem lentamente, quase imóveis, entretendo-se delicadamente com o movimento que lhes damos nós. Percorrem-nos tolerantemente, não dizem muito, mas prosseguem, disponíveis sempre. A sua atenção generosa, a magnífica reciprocidade de se deixarem olhar por quem olha e não perde tempo com o que não está lá.

Diogo Vaz Pinto

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