Vivia esse espaço de impermanência sentido através da fluidez dos dias, que não se apresentam como nas horas sincopadas do quotidiano. O seu rosto era modelado pelo vento que lhe desalinhava o cabelo numa presença selvagem e primordial. Sobressaía, nos olhos suaves, uma angústia indisfarçada; uma tristeza refém da sua intemporalidade. Tinha o mar como refúgio, emoldurado pela imensidão das arribas mudas na sua monumentalidade agreste; o horizonte imutável e distante, embalado pelos silêncios… Olhando à distância, pensava, se poderia aproximar-me dessa vaga quietude que o seu corpo encerrava e desatar os nós dos enigmas através da presença que conduz há proximidade. Mas não era fiel aos meus desejos, nem tão pouco há vontade de conhecer os apelos interiores que impulsionam os movimentos decididos; ao encontro das imagens fugazes que toldam a imaginação. Ficara com a recordação ténue dessa presença quase misteriosa, estendida na areia, com a percepção incerta de algo que poderia ter sido mas para a qual não encontrava uma verdadeira vocação. Esse espaço aberto em que se multiplicam as tenazes das horas vagas, em redor de um tempo, da luz brilhante e opressiva do sol; tardes cálidas e zumbidos de insectos esvoaçantes.

O verão estendia-se com os seus dias lânguidos e intermináveis pautados pelo suor que se desprende melosamente. Escorrendo pelo corpo aromatizado, seivas sanguíneas; salgadas pelo mar cintilante, brutalizado pela luz feérica. À noite conversava no café. Não eram bem conversas; debitavam-se “informações” e pequenos comentários cheios de pertinências vazias. Então, o espaço enchia-se de olhares que escondiam o pavor; os lábios moviam-se com a incerteza da aurora e os gestos diziam mais do que as palavras. Nessas horas aflitas na sua inconsequência brilhavam luzes de aviões que se deslocavam por entre o firmamento, ao som dos cães que latiam nos quintais. A lua pasmava a noite com a sua luz metálica e vítrea. Parecia que no centro desse tempo sem memória existia um grito agudo que se impunha há surdez do deslumbramento; da inutilidade dos pequenos gestos. Algo tão palpável como a passividade desse vazio afagado pela perpetuação. Então, pensava distraído que o tempo era a travessia de um rio e que no final desse espaço a morte nos diluiria na infinidade de deus. Finalmente, um momento de perenidade que contivesse todas as justificações para o peso de uma existência tão incauta e incerta…

Sentia nesses momentos que a vida é um vislumbre imaculável. Que a gravidade nos arrasta a todos num turbilhão de terror. Uma cegueira exposta nos corpos nus e indefesos com o paradoxo das suas certezas; das suas limitações excessivamente imaginadas. E assim, na luz clara do dia seguinte, trocava olhares incertos e deixava o pensamento deslizar ao sabor dos contornos daquele outro corpo que aprendera a distinguir. A reconhecer. A observar na possibilidade da distância. Havia um breve rumor que acalentava a oração que é o final do dia. E o mar transforma-se numa grande sombra abandonada de nostalgias invisíveis… O espanto do seu cabelo ser transparente. De na face dela não sentir recordação, tempo ou memória. De tudo estar habitado apenas pelas gaivotas que planam solitáriamente por entre as arribas; abismos voltados para a escuridão da noite. Noite preenchida pelo rumor das ondas a desatar. Noite. Noite. Noite. Não adormecer e estar acordado violentamente, acordado. A sentir os minutos escorrerem com o odor do suor. As luzes passageiras e os reflexos na parede hierática, imóvel. O peso íntimo no centro da falsa solidão; da noite que se desvela em mais escuridão. Falsa, essa solidão, porque não tem companhia…

A solidão senti-a, no meio da areia coberta de corpos veraneantes. Reflexos de tez escura e jogos inocentes na placidez estagnada pela luz solar. O azul pálido e monótono do céu, os dias a planar na certeza do abandono. Dia. Dia. Dia. Vivia esse espaço de impermanência sentido através da fluidez dos dias, que não se apresentam como nas horas sincopadas do quotidiano. O seu rosto era modelado pelo vento que lhe desalinhava o cabelo numa presença selvagem e primordial. Tinha apenas o mar como refúgio; o horizonte imutável e distante, embalado pela névoa dos silêncios… Olhando há distância, pensava, se poderia aproximar-se dessa vaga quietude que é um corpo e desatar os nós dos enigmas através da presença que conduz há proximidade. Mas não era fiel aos seus desejos. Tinha apenas a vontade de conhecer os apelos interiores, esperando que impulsionassem o encontro de momentos regidos pela sua vocação. Nesse espaço aberto, onde se multiplicam as tenazes das horas vagas.

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