O ANTIPSICOPATA

Qualquer pessoa perguntará a si própria alguma vez na vida se estará a “ser má”. É esta capacidade de nos pormos em causa, de termos dúvidas acerca do nosso comportamento, justificadas ou não, que faz de nós pessoas comuns e não monstros; ou como se costuma dizer, psicopatas.

Até há pouco tempo, o psicopata era reconhecido entre a multidão de gente cheia de culpabilidade. Hoje em dia, vários estudos querem fazer-nos crer que os psicopatas fazem parte da nossa vida. Pode ser um membro do conselho de administração, um colega ou o chefe do departamento onde trabalha. Hannibal Lecter, Ted Bundy e outros monstros ficcionados inexistentes ou ficcionados de carne e osso são hoje alguém aparentemente comum, que não mata, só mói. Ou lidera. Há tempos, num programa de televisão, vi com surpresa que um dos maiores investigadores do tema, o neurocientista James Fallon, descobriu que ele próprio tinha as características de um psicopata: obcecado, distante, indiferente aos outros. Só não matava ninguém. Este “pormenor” permitia que vivesse numa espécie de anonimato entre os restantes membros da espécie.

A hipótese de estarmos a conviver com psicopatas não gerou alarme na sociedade, mas um artigo de Melissa Dahl na “New York Magazine” sobre o que pode ser uma nova patologia perturbou o meu sono. No lado oposto ao da psicopatia, mesmo da psicopatia anónima urbana, chamemos-lhe assim, está o monstro desesperado por ajudar o próximo. Abigail A. Marsh, do Departamento de Psicologia da Universidade de Georgetown, publicou os resultados de um estudo sobre “altruístas extraordinários” numa revista científica. O objecto de estudo é o “antipsicopata”, como Marsh lhe chamou, alguém ultrapreocupado com o próximo, extraordinariamente empático e sempre pronto a ajudar o outro, ainda que tenha de pagar um custo elevado por isso. O exemplo perfeito é o dador de rins voluntário, disponível para dar um órgão seu a um estranho que dele precise (não a um familiar nem pessoa próxima, note-se).

Estas pessoas raras (são cerca de 1400 nos Estados Unidos) e, tal como acontece com a maioria dos psicopatas anónimos, não são imediatamente reconhecíveis a não ser por ressonâncias magnéticas. Uma das diferenças entre o psicopata e o seu (aparentemente) oposto é o tamanho da amígdala. A amígdala faz parte do cérebro e “regula” as emoções. Verificou-se que é maior nos altruístas extraordinários e mais pequena nos presidentes de conselhos de administração. Ambos, no entanto, parecem ter uma disfunção parecida, com fins diferentes. Como observou Fallon, o psicopata está viciado em fazer o mal e o dador espontâneo, que não se importa de passar por uma operação invasiva e por uma possível perda de qualidade de vida, está viciado em fazer o bem.

Marsh não aceita a descrição redutora porque o superaltruísta nem sequer se questiona quanto à necessidade de dar um rim a um estranho. Ou seja, o que pratica é um acto de altruísmo, portanto desinteressado. Não tem a percepção da sua generosidade anormal. Dá o rim e acha que é seu dever. Acrescentaria que se trata de uma forma de narcisismo que também consiste em fazer algum mal: a si próprio.

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