não é simples nomear rotas
afinal passamos a vida a fingir fugir dos lugares
mas ficamos lá sempre
a caminho de uma voz que não nos chama.
simulamos os sulcos, a gesta da viagem, os vazios de saudade
mas tudo o que sobrevem por fim são os restos de mapas
fragmentos de país a país que percorremos nunca.
não sei se é preciso querer pouco ou querer demais
se dia após dia é natural o desalento
no corpo na casa nas superfícies planas
ou se a preparação para o périplo da vida consiste apenas
em abrir os olhos
e não morrer antes do tempo.
não sei
não sei de que forma as realidades se esvaziam
se é por fissuras abertas pela inércia
ou se pela dor de termos fugido vezes demais.
é talvez essa ideia plana do mundo que ainda vive
essa terra deitada a tanto tempo
que quando decidimos partir
o corpo fica parado.
vai o espírito que não torna nunca
e no fim somos apenas isso
aves migratórias esquecidas de voltar

André Tomé

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