afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento
em função da dispersão atómica
criar a vontade para designar o dia
tratar o corpo dividido
em função da métrica semanal ou
em função do incomensurável enredo
sentimental

observo
cinza na ponta dos dedos
escuto
a cidade confusa as buzinas emitidas
o grito do louco
o silêncio do louco
e designo o dia como mais um milagre perdido
numa contagem das tragédias anuais

a luz que hoje cai sobre as enseadas
em função do bom tempo
na razão de uma prosperidade climática
que em pouco ou nada
altera a queda sentimental
o vento que sopra de dentro
manso
para que manso sopre também o dia

oiço o homem raso a nomear o dia como perdido
observo a mulher a soçobrar de criança ao colo
o cego a levitar sobre a desformatada cidade
toco o sétimo dia em movimento e sinto a vertigem
de cair um pouco mais
neste poço onde me vi reflectido
sempre que quis ser outro
e ser o mesmo um pouco mais

e afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento
despir-me
para me vestir de novo
e alcançar o dia com a mitológica
força da manhã
com a mansidão cantada pelos profetas
e a vestimenta branca de homem de bem

mas acontece que nada ocorre
nem um pouco mais de luz
nem o nome novo que oferece o dia
afinal talvez tudo se trate apenas de uma questão
epidérmica
de falta de nudez
de uma carne exposta rasgada de dentro para fora
onde possa chegar a luz.

André Tomé

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