E esta necessidade de dizer como uma enfermidade 
que não se cura e se agrava roendo-se a si mesma
 
e dizer que o que já não se tenha dito dum modo
 
ou doutro, mesmo no silêncio, mesmo em gritos.
 
Talvez dizer simplesmente que viver está mais além
 
da vida, que insistir é a rotina do suicídio que
 
em vez da arma escolhe um dia após outro e esta morte
 
lenta, interminável, parecida talvez à eternidade
 
ou à não vida, no caso de não ter nascido nem ter
 
certeza alguma em relação a nada. Isso é dizer, só

isso: repetir o já sabido, o demasiado sabido para 
que não corra o risco de esquecer-se dentre tantas coisas 
que acontecem no dia interminável que nos morre no 
seu não acontecer nada, o mesmo com outras máscaras, 
no tédio, na sem-razão, o absurdo. Por isso quiçá 
é tão necessário dizer, dizer esse vazio acumulado 
dentro, o vazio que se esconde fora após tantas 
supostas realidades sobrepostas; e se for possível 
dizer todavia mais, dizer basta! Com ecos como 
ondas que tapem todos os vazios e todos os dizeres 
e inundem esta boca aberta de par em par para engolir 

o nada.

Carlos Culleré

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