Do alto deste prédio, ninguém parece uma formiga. Não há abismo, como nos filmes; uma abstracção a convidar ao esvaziamento. Vê-se perfeitamente a mercearia do Sr. Esteves, o sapateiro do Sr. Augusto, o aleatório casal cansado e um passeio impecavelmente limpo. Que belo bairro. Faz todo o sentido que não seja o meu. É tão cedo; oito da manhã a cortar a respiração, a respiração a cortar o ar gélido, os meus melhores agasalhos, as contas todas por pagar, as mensagens de Natal exemplarmente ignoradas. Pelo canto do olho esquerdo, vejo entrar no enquadramento uma mulher de passo largo e ondulante, cabelos ao vento, cachecol colorido, pernas longas em collants transparentes. Um súbito abatimento. Ainda não é hoje que me atiro. Não fiz a depilação.

Menina Limão

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