Atrás de quem fomos já não voltamos.
Mas as coisas seguem-se e há um corpo
que ainda se levanta e faz número, um pouco
como chove e nos perdemos para a chuva,
habituados a desaparecer, olhar em volta
enquanto a água busca o seu próprio nível,
rouba o silêncio, devagar, enche-o.
Escolher a noite contra o risco
de um sonho, deixar antes que fale
o escuro e, por gosto ou dor,
irmos de costas. As estrelas e o resto lá,
tudo o que nos estuda. Passam comboios
acalmando a vista, barulhos que nos
soam familiares e outros
que soam mais como perguntas.

Esta parte em nós já nem se inquieta.
Sem susto, pesa uma confiança triste.
Porque somos mal feitos, insuficientes,
vamos partindo em todos as direcções,
ao mesmo tempo. Quem nos falta
morre em segredo e enfim morre mesmo.
De que nos serviram os anos? Temos
poucas histórias, só essa flor fóssil
concisa sem um tremor sequer,
intacta quando cortada
. Mas perdida

a juventude, traímos também
certos ímpetos que hoje
nos parecem vãos. Mal falamos
sobre o passado, embora bebamos
dele a sós. E do futuro que dizer
senão que nunca foi o nosso forte.

Um pouco de luz entorna ainda as palavras,
páginas manchadas de álcool, mosquitos
esmagados… Como vês, não fiz nada melhor.
Acerto contas com os lugares e os hábitos
que agora tomam outros nomes, outras
fúrias. Mas tenho de o lembrar
do caminho, para que não insista
em bater à tua procura. Luzes imundas
vão apagando o rosto que conheceste.
Imagino que possa um dia passar
por um destes velhos noctívagos sem pátria
que nos pareciam personagens para
todo o tipo de lendas. Hoje vejo como
não passam de estórias sem moral
de mão estendida para um final qualquer.
Vejo-me de costas, passar. O pressentimento
de ter falhado o destino. Sabem como é?
Um mundo vago que não nos chamou mais.

Diogo Vaz Pinto

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